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  • A geração que aprendeu a pensar em experiência antes de aprender a otimizar funil

    Existe um tipo de aprendizado que não acontece em curso, não tem certificado e não aparece no currículo. Ele acontece quando você abre uma página na internet, fica completamente imóvel na cadeira, e entende — sem conseguir explicar direito — que o que você está vendo não é um site. É outra coisa. É algo que foi pensado com uma intenção que vai muito além de organizar informação em colunas e botões. Eu tive esse momento. Muita gente da minha geração teve. E ele mudou permanentemente a forma como eu enxergo o que é fazer algo para a web.

    Isso foi nos anos 2000. A tecnologia era o Flash. E o que ela permitia construir era, sem exagero, uma escola criativa inteira — uma fase em que designers, animadores e desenvolvedores aprenderam a pensar experiência, narrativa, ritmo, impacto emocional e memória de uma forma que boa parte do mercado atual simplesmente abandonou quando trocou ousadia por eficiência.

    Nós não falávamos em funil

    Em 2006, quando entrei de vez no mercado de web design, o vocabulário dominante no segmento criativo não era o mesmo de hoje. Ninguém começava um projeto falando em taxa de conversão, jornada do usuário ou métricas de engajamento. A conversa era outra. Era sobre sensação. Sobre o que a pessoa ia sentir quando aquela intro terminasse e o menu aparecesse. Sobre o timing certo de uma transição que precisava ser fluida sem parecer genérica. Sobre como a trilha sonora precisava entrar antes da animação, não junto, porque a diferença de meio segundo mudava tudo.

    Isso não era ingenuidade de uma era que não entendia de negócio. Era uma prioridade consciente, construída por estúdios que tinham descoberto algo valioso: a percepção de valor começa antes do conteúdo. Ela começa no momento em que a experiência acontece. E se esse momento for bem construído, a marca já se posicionou antes de apresentar o primeiro argumento racional.

    Essa lógica era praticada por nomes que pra mim funcionavam como referência absoluta. 2Advanced Studios construía interfaces que pareciam saídas de um filme de ficção científica, com uma precisão de direção de arte que eu ficava horas tentando entender. derbauer Audio Visual Media misturava imagem, som e movimento de um jeito onde você não conseguia separar onde terminava o design e começava a arte. Fantasy Interactive mostrava que interatividade podia ter elegância e intenção ao mesmo tempo. Blitz Digital Studio provava que ousadia e sofisticação podiam habitar o mesmo projeto. E aqui no Brasil, estúdios como Go2Play e Magic Web Design em Curitiba mostravam que essa linguagem não era exclusividade de nenhum centro criativo do mundo, ela podia vir de qualquer lugar onde alguém levasse o trabalho com a seriedade que ele merecia.

    O que a timeline do Flash ensinava que nenhum curso ensinava

    A ferramenta em si — a timeline, o ActionScript, a lógica de símbolos e instâncias — era apenas o meio. O que ela exigia de quem trabalhava com ela era pensar em camadas de experiência que a maioria das ferramentas de hoje não cobra com a mesma intensidade. Você precisava decidir o ritmo antes de começar a construir. Precisava entender onde o olho do usuário ia estar em cada frame. Precisava ter uma noção quase musical de quando algo deveria aparecer, quando deveria sumir, quanto silêncio era necessário antes de um movimento.

    Isso formou um jeito de pensar que ficou em mim muito além da ferramenta. Quando o Flash morreu — e ele morreu de forma lenta e inevitável depois da carta de Steve Jobs em 2010, depois do iPhone transformar o mobile no centro de tudo — a mentalidade que ele havia formado não desapareceu junto. Ela ficou sem nome por um tempo, sem uma casa tecnológica clara, mas ela ficou. Pelo menos em quem havia levado aquela era a sério.

    A virada que o iPhone trouxe e o que ficou pelo caminho

    Não tenho ressentimento em relação ao que aconteceu. O iPhone mudou o mundo, e a mudança era necessária. Sites mais leves, mais acessíveis, mais rápidos — tudo isso importa de verdade, e o mercado precisava ir nessa direção. Mas existe uma diferença entre adaptar e abandonar. E o que muita gente abandonou junto com o Flash não foi só a tecnologia pesada e o plugin problemático. Foi a pergunta que aquela geração fazia antes de começar qualquer projeto.

    Como fazer isso ser inesquecível?

    Essa pergunta sumiu dos briefings. Sumiu das reuniões de planejamento. O mercado foi construindo um novo vocabulário — performance, conversão, otimização, escala — e esse vocabulário, ao longo do tempo, foi substituindo o anterior em vez de complementá-lo. O resultado é a internet que temos hoje: mais eficiente, mais acessível, mais previsível. Uma internet onde a maioria dos sites funciona muito bem e impressiona muito pouco. Onde você consome a informação e sai sem levar nada além do dado que foi buscar.

    Isso não é progresso completo. É progresso parcial com um custo que o mercado ainda não calculou direito.

    A escola continua viva em quem não esqueceu a pergunta

    O que me interessa hoje não é romantizar o Flash nem defender que precisamos voltar a fazer sites que demoram dois minutos para carregar e não abrem no celular. Isso seria ignorância nostálgica, e não é isso. O que me interessa é o princípio que aquela era carregava — e que as ferramentas de hoje permitem aplicar com uma qualidade que o Flash nunca teve.

    GSAP entrega controle de animação com uma precisão que a timeline do Flash não alcançava. Framer permite construir experiências com ritmo e personalidade sem abrir mão de performance. WebGL e Three.js abrem possibilidades de imersão que eram ficção científica nos anos 2000. Rive trouxe de volta a lógica de animação interativa com uma elegância que a era Flash tentava encontrar e nunca completamente conseguiu. A tecnologia está lá. Melhor do que nunca.

    O que falta, na maioria dos projetos, não é ferramenta. É intenção. É a disposição de fazer a pergunta certa antes de abrir o Figma ou o Framer ou qualquer outra coisa. A pergunta que minha geração aprendeu a fazer não porque alguém ensinou num curso, mas porque os estúdios que admirávamos cobravam isso da gente só pelo exemplo que davam.

    Como fazer isso ser inesquecível?

    Se você viveu aquela era, sabe exatamente do que estou falando. Sabe a diferença entre um site que informa e um site que posiciona. Sabe o que significa abrir uma página e sentir que cada detalhe foi pensado antes de você chegar. Essa sensação não é nostalgia de uma tecnologia que morreu. É um padrão de intenção criativa que o mercado precisa recuperar — com as ferramentas certas, com os conhecimentos que acumulamos desde então, mas com a mesma recusa em aceitar o previsível como resposta suficiente.

    Escrevi um artigo mais aprofundado sobre isso no criem.cc, explorando a era Flash como escola criativa e o que o mercado perdeu quando trocou ousadia por eficiência. Se esse assunto ressoa em você, vale a leitura.

  • Antes de qualquer intenção formal, havia um paiol

    Comecei pela música. Não pela teoria, não pela formação — pela necessidade de fazer acontecer. Em 1993, em Curitiba, as primeiras batidas surgiam nas festas de bairro, nas equipes de som montadas com amigos, em laboratórios improvisados onde cada evento era um experimento. O que faltava em dinheiro, sobrava em invenção. Mesa de iluminação construída à mão. Equipamentos adaptados. Sistemas montados da necessidade. Quando algo importante estava faltando, a saída nunca foi esperar. A saída foi construir.

    Foi nesse ambiente que o nome TOSS apareceu — encontrado num dicionário inglês, numa busca manual por algo com a força visual do “Boss”. Quatro letras, presença, sonoridade. Na tradução: lançar, arremessar, impulsionar pra frente. Fazia sentido. A marca não nasceu desenhada em software. Nasceu construída na parede do paiol, com latas de refrigerante e cerveja fixadas em caixa alta — gesto antes de técnica, intenção antes de forma.

    O símbolo sempre foi três traços. As pessoas perguntavam se era o “E” de eletrônico. Eu dizia: não — são três computadores. Web design, sound design, produção musical. Mas talvez elas estivessem certas também.

    Em algum momento, um amigo perguntou: “Elisandro, você é do samba ou do eletrônico?”

    Respondi sem hesitar: sou do eletrônico. Foi assim que nasceu o vanTronik — “van”, preposição de origem europeia, “tronik”, estilização de eletrônico. Um nome que carrega escolha, não apenas identidade. A música eletrônica não foi passagem. Foi escola, palco, estúdio, pesquisa. Jean Michel Jarre, KLF, Chemical Brothers, The Prodigy, Armand Van Helden, Eric Prydz, Tiësto — influências que ajudaram a construir uma sonoridade marcada por grooves ácidos, atmosferas hipnóticas e melodias épicas. Absorção, não imitação.

    A entrada no design digital veio por volta de 2003 e 2004, com formação em web design na Databyte, em Curitiba. Flash, Dreamweaver, Fireworks, Photoshop — a criação intuitiva começava a ganhar linguagem técnica. Fui pra uma das maiores agências de web design da cidade, fiquei dois anos, aprendi processo, voltei pro fundo do quintal e decidi ir sozinho. Não por impulso — por percepção de capacidade.

    Entre 2005 e 2008, os primeiros clientes chegavam com consistência. Em 2 de janeiro de 2010, a TOSS se formalizou como empresa. No mesmo ano, o vanTronik subia ao palco Trance do TribalTech, um dos maiores festivais de música eletrônica do Brasil. Em 2011 e 2012, indicações ao DJ Sound Awards nas categorias Trance DJ e Producer. Produções com suporte de Tiësto no Club Life Radio Show, Bobina, Mark Sherry e outros nomes da cena progressiva internacional. Selos como Energy BR Records, LK2 Music e Discotheque Broadcasting.

    A TOSS foi atravessando os nomes — Sonorização, Sound Production, Studio TOSS, Virtual, Electronic, Interativa — cada um revelando o território que estava sendo ocupado naquele momento. Não instabilidade: amadurecimento. Hoje é estúdio criativo com especialização em web design, com clientes em todo o Brasil e projetos internacionais. Mas a lógica continua a mesma desde o paiol: identificar o que está disperso, organizar o que está bagunçado, construir algo sólido e claro a partir disso.

    O e-lisandro.com é onde as camadas param de ser separadas.

    e de eletrônico — o universo onde me defini. e de estúdio, de experimental, de ecossistema. e de Elisandro — a pessoa por trás de tudo.

    O hífen separa o símbolo do nome e deixa os dois existirem ao mesmo tempo.